Se passarmos à categoria dos
espíritas propriamente ditos, ainda aí depararemos com certas fraquezas
humanas, das quais a doutrina não triunfa imediatamente. As mais difíceis de
vencer-se são o egoísmo e o orgulho, as duas paixões fundamentais do homem.
Entre os adeptos convictos, não há deserções, na lídima acepção do termo, visto
como aquele que desertasse, por motivo de interesse ou qualquer outro, nunca
teria sido sinceramente espírita; pode, entretanto, haver desfalecimentos. Pode
dar-se que a coragem e a perseverança fraqueiem diante de uma decepção, de uma
ambição frustrada, de uma preeminência não alcançada, de uma ferida no
amor-próprio, de uma prova difícil. Há o recuo ante o sacrifício do bem-estar,
ante o receio de comprometer os interesses materiais, ante o medo do que
dirão; há o ser-se abatido por uma mistificação, tendo como consequência,
não o afastamento, mas o esfriamento; há o querer viver para si e não para os
outros, o beneficiar-se da crença, mas sob a condição de que isso nada custe.
Sem dúvida, podem os que assim procedem ser crentes, mas, sem contestação,
crentes egoístas, nos quais a fé não ateou o fogo sagrado do devotamento e da
abnegação; às suas almas custa o desprenderem-se da matéria. Fazem nominalmente
número, porém não há contar com eles.
Todos os outros são espíritas
que em verdade merecem esse qualificativo. Aceitam por si mesmos todas as
consequências da doutrina e são reconhecíveis pelos esforços que empregam por
melhorar-se. Sem desprezarem, além dos limites do razoável, os interesses
materiais, estes são, para eles, o acessório e não o principal; não consideram
a vida terrena senão como travessia mais ou menos penosa; estão certos de que
do emprego útil ou inútil que lhe derem depende o futuro; têm por mesquinhos os
gozos que ela proporciona, em face do objetivo esplêndido que entrevêem no
além; não se intimidam com os obstáculos com que topem no caminho; vêem nas
vicissitudes e decepções provas que não lhes causam desânimo, porque sabem que
o repouso será o prêmio do trabalho. Daí vem que não se verificam entre eles
deserções, nem desfalecimentos.
O nascimento de Kardec
(Em casa do Sr. C...; médium: Srta. Aline C...)
MINHA MISSÃO
Pergunta (à Verdade) — Bom
Espírito, eu desejara saber o que pensas da missão que alguns Espíritos me
assinaram. Dize-me, peço-te, se é uma prova para o meu amor-próprio. Tenho,
como sabes, o maior desejo de contribuir para a propagação da verdade, mas, do
papel de simples trabalhador ao de missionário em chefe, a distância é grande e
não percebo o que possa justificar em mim graça tal, de preferência a tantos
outros que possuem talento e qualidades de que não disponho.
Resposta — Confirmo o que te foi
dito, mas recomendo--te muita discrição, se quiseres sair-te bem. Tomarás mais tarde
conhecimento de coisas que te explicarão o que ora te surpreende. Não esqueças
que podes triunfar, como podes falir. Neste último caso, outro te substituiria,
porquanto os desígnios de Deus não assentam na cabeça de um homem.
Nunca, pois, fales da tua missão; seria a maneira
de a fazeres malograr-se. Ela somente pode justificar-se pela obra realizada e
tu ainda nada fizeste. Se a cumprires, os homens saberão reconhecê-lo, cedo ou
tarde, visto que pelos frutos é que se verifica a qualidade da árvore.
P. — Nenhum desejo tenho
certamente de me vangloriar de uma missão na qual dificilmente creio. Se estou
destinado a servir de instrumento aos desígnios da Providência, que ela
disponha de mim. Nesse caso, reclamo a tua assistência e a dos bons Espíritos,
no sentido de me ajudarem e ampararem na minha tarefa.
R. — A nossa assistência não te faltará, mas será inútil se, de teu lado,
não fizeres o que for necessário. Tens o teu livre-arbítrio, do qual podes usar
como o entenderes. Nenhum homem é constrangido a fazer coisa alguma.
P. — Que causas poderiam
determinar o meu malogro? Seria a insuficiência das minhas capacidades?
R. — Não; mas, a missão dos
reformadores é prenhe de escolhos e perigos. Previno-te de que é rude a tua,
porquanto se trata de abalar e transformar o mundo inteiro.
Não suponhas que te baste publicar um livro, dois
livros, dez livros, para em seguida ficares tranqüilamente em casa. Tens que
expor a tua pessoa. Suscitarás contra ti ódios terríveis; inimigos encarniçados
se conjurarão para tua perda; ver-te-ás a braços com a malevolência, com a
calúnia, com a traição mesma dos que te parecerão os mais dedicados; as tuas
melhores instruções serão desprezadas e falseadas; por mais de uma vez
sucumbirás sob o peso da fadiga; numa palavra: terás de sustentar uma luta
quase contínua, com sacrifício de teu repouso, da tua tranquilidade, da tua
saúde e até da tua vida, pois, sem isso, viverias muito mais tempo. Ora bem!
não poucos recuam quando, em vez de uma estrada florida, só vêem sob os passos
urzes, pedras agudas e serpentes. Para tais missões, não basta a inteligência. Faz-se mister,
primeiramente, para agradar a Deus, humildade, modéstia e desinteresse, visto que Ele abate os orgulhosos, os presunçosos e os ambiciosos.
Para lutar contra os homens, são indispensáveis
coragem, perseverança e inabalável firmeza. Também são de necessidade prudência
e tato, a fim de conduzir as coisas de modo conveniente e
não lhes comprometer o êxito com palavras ou medidas intempestivas. Exigem-se,
por fim, devotamento, abnegação e disposição a todos os sacrifícios.
Vês, assim, que a tua missão está subordinada a
condições que dependem de ti.
Espírito Verdade
Eu — Espírito Verdade,
agradeço os teus sábios conselhos. Aceito tudo, sem restrição e sem ideia
preconcebida.
Senhor! pois que te dignaste lançar os olhos sobre
mim para cumprimento dos teus desígnios, faça-se a tua vontade!
Está nas tuas mãos a minha vida; dispõe do teu
servo.
Reconheço a minha fraqueza diante de tão grande
tarefa; a minha boa vontade não desfalecerá, as forças, porém, talvez me
traiam. Supre à minha deficiência; dá-me as forças físicas e morais que me
forem necessárias. Ampara-me nos momentos difíceis e, com o teu auxílio e dos
teus celestes mensageiros, tudo envidarei para corresponder aos teus desígnios.
Sugestão do blog: para maiores detalhes dos
problemas enfrentados por Kardec dentro da própria Sociedade Parisiense de Estudos
Espíritas, sugerimos a leitura complementar do texto acima. Obras Póstumas,
nota de Kardec 10 anos após a fundação da Sociedade.
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