sexta-feira, 26 de julho de 2024

Perseverança e Seriedade: Livro dos Espíritos


 Nosso estudo da semana sobre O Livro dos Espíritos.


Fonte: Introdução de O Livro dos Espíritos – tradução Herculano Pires


Perseverança e Seriedade

 “Acrescentemos que o estudo de uma doutrina como a espírita, que nos lança de súbito numa ordem de coisas tão nova e grande, não pode ser feito proveitosamente, senão por homens e mulheres sérios, perseverantes, isentos de prevenções e animados de uma firme e sincera vontade de chegar a um resultado. 


 Não podemos classificar assim aos que julgam a priori (sem verificação), 


1. levianamente, sem terem visto tudo; 

2. que não imprimem aos seus estudos nem a continuidade, nem a regularidade e o recolhimento necessários; 


3. e menos ainda aos que, para não diminuírem a sua reputação de homens de espírito, esforçam-se por encontrar um lado burlesco nas coisas mais verdadeiras ou assim consideradas por pessoas cujo saber, caráter e convicções, merecem a consideração dos que se prezam de urbanidade. 


 Que se abstenham, portanto, os que não julgam os fatos dignos de sua atenção; ninguém pretende violentar-lhes a crença — mas que eles também saibam respeitar as dos outros.


O que caracteriza um estudo sério é a continuidade. Devemos admirar-nos de não obter respostas sensatas a perguntas naturalmente sérias, quando as fazemos ao acaso de maneira brusca, em meio as perguntas preliminares ou complementares. Quem quer adquirir uma ciência deve estudá-la de maneira metódica, começando pelo começo e seguindo o seu encadeamento de ideias. Aquele que propõe a um sábio, ao acaso, uma questão sobre Ciência de que ignora os rudimentos, obterá algum proveito? O próprio sábio poderá, com a maior boa vontade, dar-lhe uma resposta satisfatória? Essa resposta isolada será forçosamente incompleta e, por isso mesmo, quase será ininteligível, ou poderá parecer absurda e contraditória. Acontece o mesmo em nossas relações com os Espíritos. Se desejamos aprender com eles, temos de seguir-lhes o curso; mas, como entre nós, é necessário escolher os professores e trabalhar com assiduidade.


Dissemos que os Espíritos superiores só comparecem às reuniões sérias, àquelas, sobretudo, em que reina a perfeita comunhão de pensamentos e bons sentimentos. A leviandade e as perguntas ociosas os afastam como, entre os homens, afastam as criaturas ponderadas; o campo fica então livre à turba de Espíritos mentirosos e frívolos, sempre à espreita de oportunidades para zombarem de nós e se divertirem à nossa custa. No que se transformaria uma pergunta séria, numa reunião dessas? Teria resposta? De quem? Seria o mesmo que lançarmos, numa reunião de gaiatos, estas perguntas: o que é a alma? ; o que é a morte?; e outras coisas assim divertidas.


Se quereis respostas sérias, sede sérios vós mesmos, em toda a extensão do termo, e mantende-vos nas condições necessárias: somente então obtereis grandes coisas. Sede, além disso, laboriosos e perseverantes em vossos estudos, para que os Espíritos superiores não vos abandonem, como faz um professor com os alunos negligentes”.


Apresentamos a seguir um pequeno estudo que o texto de Kardec nos oferece:


 Resumo de "O Livro dos Espíritos" sobre Perseverança e Seriedade


1. Importância da Seriedade e Perseverança no Estudo Espírita

   - Allan Kardec ressalta que a doutrina espírita, por sua profundidade e novidade, requer estudo sério e perseverante. Somente aqueles que se dedicam com vontade sincera e isenção de preconceitos podem alcançar resultados proveitosos. Julgar levianamente ou sem continuidade no estudo não leva a uma compreensão verdadeira.


2. Continuidade no Estudo

   - O estudo sério é caracterizado pela continuidade. Perguntas feitas de forma aleatória ou sem método não geram respostas satisfatórias. Para adquirir conhecimento de qualquer ciência, é necessário seguir um encadeamento de ideias, começando pelo básico e avançando progressivamente. O mesmo se aplica ao estudo dos ensinamentos dos Espíritos.


3. Seriedade das Reuniões Espíritas

   - Espíritos superiores só participam de reuniões onde há uma perfeita comunhão de pensamentos e bons sentimentos. A leviandade e perguntas ociosas afastam esses Espíritos, abrindo espaço para Espíritos frívolos e mentirosos. Assim, perguntas sérias em ambientes levianos não obterão respostas adequadas ou verdadeiras.


4. Condições Necessárias para Obter Respostas

   - Para receber respostas sérias dos Espíritos, é necessário ser sério em toda a extensão do termo e manter as condições adequadas para o estudo. Isso inclui a laboriosidade e a perseverança nos estudos, assegurando a presença contínua dos Espíritos superiores, tal como um professor que só permanece com alunos dedicados.


5. Respeito e Civilidade

   - Kardec também enfatiza o respeito pelas crenças alheias. Aqueles que não julgam os fatos dignos de atenção não são forçados a acreditar, mas devem respeitar as convicções dos outros. Ridicularizar os estudos sérios é desrespeitoso e contraproducente para quem busca verdadeiramente compreender a doutrina espírita.


. Em suma, a seriedade, a perseverança, o respeito e a continuidade são os alicerces que sustentam o estudo eficaz e profundo da doutrina espírita, conduzindo a uma verdadeira compreensão dos seus princípios e ensinamentos.


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domingo, 10 de setembro de 2023

Um olhar sobre soberano do Criador

 


Cap 17 itens 4 e 5 da A Gênese – Um olhar sobre soberano Criador

 

4. O Universo é, ao mesmo tempo, um mecanismo imenso conduzido por um número incontável de inteligências, um enorme governo onde cada ser inteligente tem sua parte de ação sob o olhar do soberano Criador, cuja vontade única mantém a unidade por toda a parte. Sob o império desse vasto poder regulador tudo se movimenta, tudo funciona numa perfeita ordem. O que consideramos distúrbios são movimentos parciais e isolados que aparentam ser irregulares somente porque nossa visão é limitada. Se pudermos abarcar o conjunto, veremos nessas irregularidades somente aparências que se harmonizam no todo.

Considerações para pesquisas e discussões do grupo sobre o item 4

Vamos entender que:

1.    Deus coordena tudo mas existe toda uma estrutura de INTELIGÊNCIAS que trabalham com ele na tarefa. Você concorda?

 

1. O que é Deus?

— Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas...

4. Onde podemos encontrar a prova da existência de Deus?

 

— Num axioma que aplicais às vossas ciências: não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem e vossa razão vos responderá.

 

ð  Comentário de Kardec: Para crer em Deus é suficiente lançar os olhos às obras da criação. O universo existe; ele tem, portanto, uma causa. Duvidar da existência de Deus seria negar que todo efeito tem uma causa, e avançar que o nada pôde fazer alguma coisa.

Comentário de Kardec: A harmonia que regula as forças do universo revela combinações e fins determinados, e por isso mesmo um poder inteligente. Atribuir a formação primária ao acaso, seria uma falta de senso, porque o acaso é cego e não pode produzir efeitos inteligentes. Um acaso inteligente já não seria um acaso.

Sobre: incontável de inteligências

a)   Em plano secundário temos:

111. Segunda classe. Espíritos Superiores

— Reúnem a ciência, a sabedoria e a bondade. Sua linguagem, que só transpira benevolência, é sempre digna, elevada, e frequentemente sublime. Sua superioridade os torna, mais que os outros, aptos a nos proporcionar as mais justas noções sobre as coisas do mundo incorpóreo, dentro dos limites do que nos é dado conhecer. Comunicam-se voluntariamente com os que procuram de boa fé a verdade e cujas almas estejam bastante libertas dos liames terrenos, para a compreender; mas afastam-se dos que são movidos apenas pela curiosidade ou que, pela influência da matéria, se desviam da prática do bem.

 

Quando, por exceção, se encarnam na Terra, é para cumprir uma missão de progresso, e então nos oferecem o tipo de perfeição a que a humanidade pode aspirar neste mundo.

 

b)   Em plano maior:

PRIMEIRA ORDEM: ESPÍRITOS PUROS

 

112. Caracteres Gerais. Nenhuma influência da matéria. Superioridade intelectual e moral absoluta, em relação aos Espíritos das outras ordens.

 

113. Primeira classe. Classe Única — Percorreram todos os graus da escala e se despojaram de todas as impurezas da matéria. Havendo atingido a soma de perfeições de que é suscetível a criatura, não têm mais provas nem expiações a sofrer. Não estando mais sujeitos à reencarnação em corpos perecíveis, vivem a vida eterna, que desfrutam no seio de Deus.

 

Gozam de uma felicidade inalterável, porque não estão sujeitos nem às necessidades nem às vicissitudes da vida material, mas essa felicidade não é a de uma ociosidade monótona, vivida em contemplação perpétua.

==è São os mensageiros e os ministros de Deus, cujas ordens executam, para a manutenção da harmonia universal. Dirigem a todos os Espíritos que lhes são inferiores, ajudam-nos a se aperfeiçoarem e determinam as suas missões. Assistir os homens nas suas angústias, incitá-los ao bem ou à expiação das faltas que os distanciam da felicidade suprema é para eles uma ocupação agradável. São, às vezes, designados pelos nomes de anjos, arcanjos ou serafins.

 

5.A previsão dos movimentos progressivos da humanidade não é surpreendente para os seres desmaterializados que veem o objetivo para o qual tendem todas as coisas, alguns dos quais possuem o pensamento direto de Deus.

1     Eles presumem, nos movimentos parciais,

2     o tempo em que um movimento geral pode ser realizado,

3     da mesma forma que se calcula antecipadamente o tempo que uma árvore leva para dar frutos e os astrônomos calculam a época de um fenômeno astronômico pelo tempo que leva um astro para completar sua revolução.

 

ð  Mas aqueles que anunciam esses fenômenos, autores de almanaques que predizem eclipses e marés, por certo, não estão em condições de fazer os cálculos necessários; apenas os repetem. O mesmo ocorre com os Espíritos secundários cuja visão é limitada e somente repetem o que convém aos Espíritos superiores revelar.

Destaquei em sequência numérica acima, para facilitar a leitura e entendimentos.

        536. Os grandes fenômenos da Natureza, esses que se consideram como perturbações dos elementos, são devidos a causas fortuitas ou têm pelo contrário, um fim providencial?                                         

— Tudo tem uma razão de ser e nada acontece sem a permissão de Deus.

 

536 – b) Concebemos perfeitamente que a vontade de Deus seja a causa primária, nisso como em todas as coisas; mas como sabemos que os Espíritos podem agir sobre a matéria e que eles são os agentes da vontade de Deus, perguntamos se alguns dentre eles não exerceriam uma influência sobre os elementos para os agitar, acalmar ou dirigir?

 

— Mas é evidente; isso não pode ser de outra maneira. Deus não se entrega a uma ação direta sobre a Natureza, mas tem os seus agentes dedicados, em todos os graus da escala dos mundos.

 

537. A Mitologia dos antigos é inteiramente fundada sobre as ideias espíritas, com a diferença de que consideravam os Espíritos como divindades. Ora, eles nos representavam esses deuses ou esses Espíritos com atribuições especiais. Assim, uns eram encarregados dos ventos, outros do raio, outros de presidir a vegetação, etc. Essa crença é destituída de fundamento?

— Tão pouco destituída de fundamento que está ainda muito aquém da verdade.

 

537 – a) Pela mesma razão poderia haver Espíritos habitando o interior da Terra e presidindo aos fenômenos geológicos?

— Esses Espíritos não habitam precisamente a Terra, mas presidem e dirigem os fenômenos segundo as suas atribuições. Um dia tereis a explicação de todos esses fenômenos e os compreendereis melhor.

 

ð  Para Léon Denis, os diversos elementos que compõem a Natureza são fonte de profundos ensinamentos, um verdadeiro livro onde a alma com silêncio e atenção consegue ler em caracteres sublimes os mistérios da criação. A Natureza se assemelha a uma grande biblioteca onde as almas famintas da sabedoria imorredoura de Deus sorvem as alegrias do infinito.

O céu estrelado, manto sagrado e misterioso que se estende sob nossas cabeças, fala-nos da nossa destinação, dos cem mundos por onde vivemos e viveremos. Quem nunca, nas noites calmas e estreladas, não questionou a nossa destinação, o porquê da vida e se embriagou pelos mistérios das lâmpadas acesas pelo infinito? Fonte inspiradora dos poetas e pintores, místicos e filósofos.

E a floresta? Ah, que alegria a alma sente ao embrear por seus caminhos. Um silêncio profundo ao homem se impõe, como se estivesse entrando em um templo sagrado, morada de um grande sábio onde tudo é lição e aprendizado. As vozes e murmúrios lhe alcançam. Ao longe, um pássaro com sua deliciosa melodia; mais perto, o vento farfalha as árvores que sobe aos céus como uma nave de uma igreja. Quanto bem nos faz a natureza? Ao fim da jornada a alma está renovada, embriagada pelas forças misteriosas da natureza, da criação de Deus. O seu convívio é fonte para a saúde da alma.

ð  Se a Natureza é um grande livro, a beleza é a tinta que Deus escolheu para grafá-la e imortalizá-la. Em Deus temos a fonte de toda a beleza e harmonia:

“É a ti, ó Potência Suprema! Qualquer que seja o nome que te deem e por mais imperfeitamente que sejas compreendida; é a ti, fonte eterna da vida, da beleza, da harmonia, que se elevam nossas aspirações, nossa confiança, nosso amor!" [2]

Saibamos, pois, encontrar, no grande livro da natureza, a beleza e a inspiração para a jornada das nossas vidas. E, sendo a vida uma grande jornada, temos em Léon Denis um guia seguro e amoroso. Sigamo-lo!

 

Referências:

 

1 - Léon Denis, O Grande Enigma, capítulo 4

2 - Léon Denis, O Grande Enigma, capítulo 1.


#espiritismo



domingo, 8 de agosto de 2021

Uma expiação terrestre

 O jovem François



As pessoas que leram O Céu e o Inferno sem dúvida se lembram da tocante história de Marcel, o menino nº 4, relatada no Cap. VIII das Expiações terrestres. O fato seguinte apresenta um caso mais ou menos análogo e não menos instrutivo, como aplicação da soberana justiça e como explicação do que por vezes parece inexplicável em certas posições da vida.

Numa boa e honesta família morreu, eu outubro de 1866, um rapaz de doze anos, cuja vida, durante nove anos, tinha sido um sofrimento contínuo, que nem os cuidados afetuosos de que era cercado, nem os socorros da ciência tinham podido ao menos suavizar. Ele foi acometido de paralisia e de hidropisia; seu corpo estava coberto de chagas invadidas pela gangrena e suas carnes caíam aos pedaços. Muitas vezes, no paroxismo da dor, ele exclamava: “Que fiz eu, então, meu Deus, para merecer tanto sofrimento? Desde que estou no mundo, entretanto, não fiz mal a ninguém!” Instintivamente esse menino compreendia que o sofrimento devia ser uma expiação, mas, na ignorância da lei de solidariedade das existências sucessivas, não remontando o seu pensamento além da vida presente, ele não se dava conta da causa que poderia justificar nele tão cruel castigo.

Uma particularidade digna de nota foi o nascimento de uma irmã, quando ele tinha cerca de três anos. Foi nessa época que se declararam os primeiros sintomas da terrível moléstia da qual ele devia sucumbir. Desde esse momento ele concebeu pela recém-vinda uma repulsa tal que não podia suportar sua presença e à sua vista pareciam redobrar seus sofrimentos. Muitas vezes ele se reprochava esse sentimento que nada justificava, porque a pequena não o partilhava, ao contrário, ela era para ele suave e amável. Ele dizia à sua mãe: “Por que, então, a visão de minha irmãzinha me é tão penosa? Ela é boa para mim, e contra minha vontade não possa impedir-me de detestá-la.” Entretanto não podia suportar que lhe fizessem o menor mal, nem que a magoassem; longe de se alegrar com suas penas, afligia-se quando a via chorar. Era evidente que dois sentimentos nele se combatiam; ele compreendia a injustiça de sua antipatia, mas seus esforços para superá-la eram impotentes.

Que tais enfermidades sejam, em certa idade, consequência de má conduta, seria uma coisa muito natural, mas de que faltas tão graves um menino dessa idade pode ser culpado para suportar semelhante martírio? Além disso, de onde podia provir essa repulsa por um ser inofensivo? Eis problemas que se apresentam a cada instante, e que levam muita gente a duvidar da justiça de Deus, porque aí não encontram solução em nenhuma religião. Essas anomalias aparentes encontram, ao contrário, sua completa justificação na solidariedade das existências. Um observador espírita poderia dizer, então, com toda a aparência de razão, que esses dois seres eram conhecidos e tinham sido colocados um ao lado do outro na existência atual para alguma expiação e para a reparação de alguma falta. Do estado de sofrimento do irmão poderíamos concluir que ele era o culpado, e que os laços de parentesco próximo que o uniam ao objeto de sua antipatia lhe eram impostos para preparar entre eles as vias de uma reaproximação. Assim, já se vê no irmão uma tendência e esforços para superar seu afastamento, que ele reconhece injusto. Essa antipatia não tinha os caracteres do ciúme que por vezes se nota em crianças do mesmo sangue. Ela provinha, pois, conforme toda a probabilidade, de lembranças penosas, e talvez do remorso despertado pelo presença da menina. Tais são as deduções que racionalmente podem ser tiradas, por analogia, da observação dos fatos, e que foram confirmadas pelo Espírito do rapaz.



Evocado quase imediatamente após a morte, por uma amiga da família, pela qual ele tinha muita afeição, a princípio não pôde explicar-se de maneira completa e prometeu dar ulteriormente detalhes mais circunstanciados. Entre as diversas comunicações que deu, eis as duas que se referem mais particularmente à questão.

“Esperais de mim o relato, que prometi, do que fui numa existência anterior, e a explicação da causa de meus grandes sofrimentos. Será um ensinamento para todos. Bem sei que tais ensinamentos estão em toda parte; encontram-se por todos os lados, mas o relato de fatos cujas consequências nós mesmos vimos, é sempre, para os que existem, uma prova muito mais chocante.

“Eu pequei, sim, eu pequei! Sabeis o que é ter sido assassino, ter atentado contra a vida de seu semelhante? Não o fiz pela maneira que os assassinos empregam, matando rápido, com uma corda ou com uma faca ou qualquer outro instrumento. Não, não foi desta maneira. Matei, mas matei lentamente, fazendo sofrer um ser que eu detestava! Sim, detestava essa criança que eu julgava não me pertencer! Pobre inocente! Tinha ela merecido essa triste sorte? Não, meus pobres amigos, não o tinha merecido ou, pelo menos, não me cabia fazê-la sofrer esses tormentos. Entretanto, eu o fiz, e eis por que fui obrigado a sofrer como vistes.

“Eu sofri, meu Deus! É bastante? Sois muito bom, Senhor! Sim, em presença de meu crime e da expiação, acho que fostes muito misericordioso.

“Orai por mim, caros pais, caros amigos. Agora meus sofrimentos passaram. Pobre Sra. D..., eu vos faço sofrer! É que era muito penoso para mim vir fazer a confissão desse crime imenso!

“Esperança, meus bons amigos! Deus me perdoou minha falta. Agora estou na alegria e, entretanto, também na pena. Vede! É bom estar num estado melhor, ter expiado: o pensamento, a lembrança de seus crimes deixam uma tal impressão que é impossível que não se sinta ainda por muito tempo todo o horror, porque não foi somente na Terra que sofri, mas antes, nesta vida espiritual! E que sofrimento que tive para me decidir a vir sofrer esta expiação terrível! Não vos posso narrar tudo isto, pois seria muito horroroso! A visão constante de minha vítima e a outra, a pobre mãe! Enfim, meus amigos, preces por mim e graças ao Senhor! Eu vos tinha prometido este relato; era preciso que até o fim eu pagasse a minha dívida, por mais que ela me custasse.”

(Até aqui o médium havia escrito sob o império de uma viva emoção. Depois, continuou com mais calma).

“E agora, meus bons pais, uma palavra de consolação. Obrigado, oh obrigado a vós que me ajudastes nesta expiação e que carregastes uma parte; suavizastes, tanto quanto de vós dependia, o que havia de amargo em meu estado. Não vos magoeis, porque é coisa passada; estou feliz, eu vo-lo disse, sobretudo comparando o estado passado com o presente. Amo-vos a todos; agradeço-vos; beijo-vos; amai-me sempre. Encontrar-nos-emos e todos juntos continuaremos esta vida eterna, procurando que a vida futura resgate inteiramente a vida passada.

“Vosso filho, François E.”

Numa outra comunicação, o Espírito do jovem François completou as informações acima.

Pergunta. ─ Caro rapaz, não disseste de onde vinha tua antipatia por tua irmãzinha.

Resposta. ─ Não o adivinhais? Essa pobre e inocente criatura era minha vítima, que Deus tinha ligado à minha existência como um remorso vivo. Eis por que sua visão me fazia sofrer tanto.

P. ─ Entretanto não sabias quem era ela.

R. ─ Não sabia em estado de vigília, sem o que meus tormentos teriam sido cem vezes mais horríveis, tão horríveis quanto tinham sido na vida espiritual, onde eu a via incessantemente. Mas credes que meu Espírito, nos momentos em que estava desprendido, não o soubesse? Nisso estava a causa de minha repulsa; e se eu me esforçava por combatê-la, é que instintivamente sentia que era injusta. Eu não era ainda bastante forte para fazer bem àquela que eu não podia impedir-me de detestar, mas não queria que lhe fizessem mal: era um começo de reparação. Deus levou em conta esse sofrimento, por isto permitiu que cedo ficasse livre de minha vida de sofrimento, sem o que eu teria podido viver ainda longos anos na horrível situação em que me vistes.

“Bendizei, pois, minha morte, que pôs um termo à expiação, porque ela foi o preço de minha reabilitação.

P. ─ (ao guia do médium). Por que a expiação e o arrependimento na vida espiritual não bastam para a reabilitação, sem que seja necessário a isto juntar sofrimentos corporais?

R. ─ Sofrer num mundo ou no outro é sempre sofrer, e se sofre o tempo necessário para que a reabilitação seja completa.

Essa criança sofreu muito na Terra. Ora! Isto nada é em comparação com o que suportou no mundo dos Espíritos. Aqui ele tinha, em compensação, os cuidados e a afeição de que era rodeado. Há ainda esta diferença entre o sofrimento corporal e o sofrimento espiritual, que o primeiro é quase sempre voluntariamente aceito como complemento de expiação, ou como provação para adiantar-se mais rapidamente, ao passo que o outro é imposto.

Mas há outros motivos para o sofrimento corporal: inicialmente, para que a reparação se faça nas mesmas condições em que o mal foi feito; depois, para servir de exemplo aos encarnados. Vendo seus semelhantes sofrerem e sabendo a razão, eles ficam muito mais impressionados do que ao saber que são infelizes como Espíritos; podem melhor compreender a causa de seus próprios sofrimentos; a justiça divina se mostra, de certo modo, palpável aos seus olhos. Enfim, o sofrimento corporal é uma ocasião para os encarnados exercitarem a caridade entre si, uma prova para seus sentimentos de comiseração, e muitas vezes um meio de reparar erros anteriores, porque, crede-o, quando um infortunado se acha em vosso caminho, não é por efeito do acaso.

Para os pais do jovem François, era uma grande prova ter um filho nessa triste posição. Pois bem! Eles cumpriram dignamente seu mandato, e serão tanto melhor recompensados por terem agido espontaneamente, pelo próprio impulso do coração. Se os Espíritos não sofressem na encarnação, seria porque na Terra só haveria Espíritos perfeitos.

Fonte:  Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1867 > Maio > Uma expiação terrestre

terça-feira, 14 de abril de 2020

A dor é o aguilhão que impele o homem para a frente, no caminho do progresso.


Holzfigur, Pedras, Luta De Vida

Desde a origem do homem a dor, o sofrimento o acompanha.

No início, quando a luta pela sobrevivência era a única preocupação humana, destacavam-se os padecimentos físicos de todas as ordens. 

Na medida em que a mente foi se desenvolvendo, surgiram também as aflições do ser pautadas pelos problemas existenciais e as angústias morais, resultantes de nosso livre-arbítrio.

Mas a todo momento nos questionamos. Por que sofremos?

Vamos encontrar orientações e respostas a este questionamento nas Obras de Kardec. Abaixo em o Evangelho Segundo o Espiritismo – cap.V itens 4 e 6

“As vicissitudes da vida são de duas espécies, ou, se quisermos, tem duas origens bem diversas, que importa distinguir: umas têm sua causa na vida presente; fora desta vida”.

“Mas se há males, nesta vida, de que o homem é a própria causa, há também outros que, pelo menos em aparência, são estranhos à sua vontade e parecem golpeá-lo por fatalidade. 

Assim, por exemplo, a perda de entes queridos e dos que sustentam a família. 

Assim também os acidentes que nenhuma previdência pode evitar; os revezes da fortuna, que frustram todas as medidas de prudência; os flagelos naturais; e ainda as doenças de nascença, sobretudo aquelas que tiram aos infelizes a possibilidade de ganhar a vida pelo trabalho: as deformidades, a idiota, a imbecilidade etc.”  
    
Desta forma, diante da necessidade de realizarmos nosso progresso em busca da perfeição, vamos encontrar no Cap. 3. A Gênese de Allan Kardec que:

“Devendo o homem progredir, os males, aos quais está exposto, são um estimulante para o exercício da sua inteligência, de todas as suas faculdades, físicas e morais, iniciando-o na pesquisa dos meios para deles subtrair-se. 

Se não tivesse nada a temer, nenhuma necessidade o levaria à procura dos meios, seu espírito se entorpeceria na inatividade; não inventaria nada e não descobriria nada. A dor é o aguilhão que impele o homem para a frente, no caminho do progresso.”


Dando sequência ao pensamento sempre atual da Doutrina Espírita, continua AK no capítulo citado acima sobre a dor:

Mas, os mais numerosos males são aqueles que o homem cria para si mesmo, pelos seus próprios vícios, aqueles que provêm de seu orgulho, de seu egoísmo, de sua ambição, de sua cupidez, de seus excessos em todas as coisas.

(...) Deus estabeleceu leis, plenas de sabedoria, que não têm por objetivo senão o bem; o homem encontra em si mesmo, tudo o que é necessário para segui-las; sua rota está traçada pela sua consciência; a lei divina está gravada no seu coração. (...) Se o homem se conformasse, rigorosamente, com as leis divinas, não há dúvida de que evitaria os mais pungentes males, e que viveria feliz sobre a Terra. Se não o faz, é em virtude do seu livre-arbítrio, e, disso sofre as consequências.

Outro autor clássico também nos ajuda a raciocinar sobre a Dor.

Léon Denis (1849-1927) – escritor espírita francês, contemporâneo de Allan Kardec, desenvolve o assunto em seu livro O Problema do Ser, do Destino e da Dor:

“Por mais admirável que possa parecer à primeira vista, a dor é apenas um meio de que usa o Poder Infinito para nos chamar a si e, ao mesmo tempo, tornar-nos mais rapidamente acessíveis à felicidade espiritual, única duradoura. É, pois, realmente, pelo amor que nos tem, que Deus envia o sofrimento. Fere-nos, corrige-nos como a mãe corrige o filho para educá-lo e melhorá-lo; trabalha incessantemente para tornar dóceis, para purificar e embelezar nossas almas, porque elas não podem ser verdadeiras, completamente felizes, senão na medida correspondente às suas perfeições”.

E continua:

“Para isso pôs Deus, nesta terra de aprendizagem, ao lado das alegrias raras e fugitivas, dores frequentes e prolongadas, para nos fazer sentir que o nosso mundo é um lugar de passagem e não o ponto de chegada. Gozos e sofrimentos, prazeres e dores, tudo isto Deus distribuiu na existência como um grande artista que, na tela, combina a sombra e a luz para produzir uma obra-prima”.

Concluindo:

[...] a Dor corrige, educa, aperfeiçoa, exalta, redime e glorifica o sentimento humano a cada vibração que lhe extrai através do sofrimento. (Léon Denis)

O Senhor transforma o veneno de nossos erros em remédio salutar para o resgate de nossas culpas... (...) aprende a sofrer com humildade para que a tua dor não seja simplesmente orgulho ferido. (Léon Denis - O Problema do Ser, do Destino e da Dor.)

Os momentos difíceis, também são oportunidades de testemunhar a nossa fé. Deus não nos abandona e tão pouco designa fardos pesados a ombros frágeis. Léon Denis.

Montanha, Salto, Alta, Rock, Menino

segunda-feira, 30 de março de 2020

CHEGADOS OS TEMPOS?(para o PLANETA TERRA E NÃO APENAS PARA O BRASIL)


Coranavirus, Protecção, Público, Grupo


Atualidade do Pensamento Espírita

(Sociedade de Paris, 16 de outubro de 1868).

Em todos os tempos fizeram preceder os grandes cataclismos fisiológicos de sinais manifestos da cólera dos deuses. Fenômenos particulares precediam a irrupção do mal, como uma advertência para se prepararem para o perigo. Essas manifestações, com efeito, ocorreram não como um presságio sobrenatural, mas como sintomas da iminência da perturbação.

“A saúde é o resultado do equilíbrio das forças naturais; se uma doença epidêmica devasta qualquer lugar, ela não pode ser senão a consequência de uma ruptura desse equilíbrio; daí o estado particular da atmosfera e os fenômenos singulares que aí podem ser observados.” (Allan Kardec - Revista Espírita novembro de 1868)


Explicando: no artigo da RE está relacionado a um fato da época, mas cuja contextualização se aplica aos dias atuais.



   Vírus, Coronavirus, O Sars-Cov-2, Flash
Uma epidemia universal teria semeado o espanto da Humanidade inteira e por muito tempo detido a marcha do progresso; uma epidemia restrita, atacando passo a passo e sob múltiplas formas cada centro de civilização, produzirá os mesmos efeitos, salutares e regeneradores, mas deixará intactos os meios de ação de que a Ciência pode dispor. Os que morrem são vitimados pela impotência, mas os que veem a morte à sua porta buscam novos meios de combatê-la. O perigo torna inventivo, e quando todos os meios materiais estiverem esgotados, cada um será constrangido a pedir a salvação aos meios espirituais.

“Cada dia mais entramos no período transitório que deve trazer a transformação orgânica da Terra e a regeneração de seus habitantes. Os flagelos são instrumentos de que se serve o grande cirurgião do Universo para extirpar do mundo, destinado a marchar para a frente, os elementos gangrenados que nele provocam desordens incompatíveis com o seu novo estado.” (parece texto de hoje março de 2020, mas na verdade é de Kardec em novembro 1868)


Preparai-vos, pois, para tudo, e sejam quais forem a hora e a natureza do perigo, compenetrai-vos desta verdade: A morte não é senão uma palavra vã e não há nenhum sofrimento que as forças humanas não possam dominar. Aqueles para os quais o mal será insuportável, serão os únicos que tê-lo-ão recebido com o riso nos lábios e a despreocupação no coração, isto é, que julgar-se-ão fortes em sua incredulidade. (RE nov/1868)

==> mais detalhes na Revista Espirita novembro 1868.


34. Opera-se presentemente um desses movimentos gerais, destinados a realizar uma remodelação da Humanidade. A multiplicidade das causas de destruição constitui sinal característico dos tempos, visto que elas apressarão a eclosão dos novos germens. 

São as folhas que caem no outono e às quais sucedem outras folhas cheias de vida, porquanto a Humanidade tem suas estações, como os indivíduos têm suas várias idades. As folhas mortas da Humanidade caem batidas pelas rajadas e pelos golpes de vento, porém, para renascerem mais vivazes sob o mesmo sopro de vida, que não se extingue, mas se purifica. (A Gênese - AK)

Pequeno comentário nosso:
“O Brasil não é o único pais do planeta que passa por transformações”. “Isto faz parte de um processo universal”. 

 Leon Denis em seu discurso na Conferência em Tours em 29 de fevereiro de 1880 e também em 04 de abril de 1880 em Orléans fala especificamente sobre o PROGRESSO.

 Abaixo um pequeno extrato:

“O homem, fisicamente, materialmente, é como uma planta que se desenvolve naturalmente, em virtude das leis universais; porém, intelectualmente e moralmente, ele se cria por si mesmo”.

É por uma longa série de esforços, de trabalhos e de buscas que ele se torna no que é; é por suas relações com seus semelhantes que ele cria a ordem social completa.
Sua elevação é, portanto, sua própria obra e eis por que ele se pode mostrar orgulhoso por isso.

Aliás, se o progresso fosse fatal, seria contínuo e nada poderia entravá-lo, criar-lhe obstáculo. Não vemos, na História do mundo, períodos de decadência e de abatimento se sucederem a períodos de progresso e de civilização? Não é por uma caminhada contínua que a humanidade se fortifica, se esclarece e cresce. 

Não!... É através de vicissitudes sem número, de alternativas de triunfo e de sofrimento, é sobre uma estrada desigual onde as quedas são tão numerosas quanto as ascensões, na qual encontramos, a cada passo, as marcas de seus pés sangrentos.

O progresso é como o oceano, tem seus fluxos e seus refluxos, suas marés altas e baixas, as quais abrangem períodos às vezes seculares.

Suas ondas incontáveis assaltam as rochas e os escolhos, reviram-nos e depois se estendem sobre imensas superfícies onde jamais haviam penetrado; logo recuam, afastam-se e, em seu movimento oposto, deixam descobertas várias praias. 

Todavia retornam um dia, mais formidáveis, invadindo novos espaços e conquistando novos terrenos.

...os Impérios cheios de sombra e de corrupção, que precederam a aurora...

Na hora em que estamos uma nova ascensão se prepara para nosso povo; a onda sobre, agiganta-se a olhos vistos.

Que possa ela elevar-se bem alto e varrer diante de si todos os fantasmas do passado: preconceitos, ignorância e fanatismo, que ainda se opõem à sua passagem.


573. Em que consiste a missão dos Espíritos encarnados?

“Em instruir os homens, em lhes auxiliar o progresso; em lhes melhorar as instituições, por meios diretos e materiais. As missões, porém, são mais ou menos gerais e importantes. O que cultiva a terra desempenha tão nobre missão, como o que governa, ou o que instrui. Tudo em a Natureza se encadeia. 

Ao mesmo tempo que o Espírito se depura pela encarnação, concorre, dessa forma, para a execução dos desígnios da Providência. Cada um tem neste mundo a sua missão, porque todos podem ter alguma utilidade.”

756. A sociedade dos homens de bem se verá algum dia expurgada dos seres malfazejos?

“A Humanidade progride. Esses homens, em quem o instinto do mal domina e que se acham deslocados entre pessoas de bem, desaparecerão gradualmente, como o mau grão se separa do bom, quando este é joeirado. 

Mas, desaparecerão para renascer sob outros invólucros. Como então terão mais experiência, compreenderão melhor o bem e o mal. Tens disso um exemplo nas plantas e nos animais que o homem há conseguido aperfeiçoar, desenvolvendo neles qualidades novas. 

Pois bem, só ao cabo de muitas gerações o desenvolvimento se torna completo. É a imagem das diversas existências do homem.”

783. Segue sempre marcha progressiva e lenta o aperfeiçoamento da Humanidade?

“Há o progresso regular e lento, que resulta da força das coisas. Quando, porém, um povo não progride tão depressa quanto devera, Deus o sujeita, de tempos a tempos, a um abalo físico ou moral que o transforma.”

O homem não pode conservar-se indefinidamente na ignorância, porque tem de atingir a finalidade que a Providência lhe assinou. Ele se instrui pela força das coisas

As revoluções morais, como as revoluções sociais, se infiltram nas ideias pouco a pouco; germinam durante séculos; depois, irrompem subitamente e produzem o desmoronamento do carunchoso edifício do passado, que deixou de estar em harmonia com as necessidades novas e com as novas aspirações.

Nessas comoções, o homem quase nunca percebe senão a desordem e a confusão momentâneas que o ferem nos seus interesses materiais. Aquele, porém, que eleva o pensamento acima da sua própria personalidade, admira os desígnios da Providência, que do mal faz sair o bem. São a procela, a tempestade que saneiam a atmosfera, depois de a terem agitado violentamente.

784. Bastante grande é a perversidade do homem. Não parece que, pelo menos do ponto de vista moral, ele, em vez de avançar, caminha aos recuos?

“Enganas-te. Observa bem o conjunto e verás que o homem se adianta, pois que melhor compreende o que é mal, e vai dia a dia reprimindo os abusos. Faz-se mister que o mal chegue ao excesso, para tornar compreensível a necessidade do bem e das reformas.”

797. Como poderá o homem ser levado a reformar suas leis?


“Isso ocorre naturalmente, pela força mesma das coisas e da influência das pessoas que o guiam na senda do progresso. Muitas já ele reformou e muitas outras reformará. Espera!”

sábado, 31 de agosto de 2019

Toda violência doméstica é repudiável

Violência, Abuso, Agressão


“Discute-se muito hoje sobre o futuro, sobre o tipo de mundo que queremos deixar aos nossos filhos, que sociedade queremos para eles. Creio que uma das respostas possíveis se encontra pondo o olhar em vós, nesta família que falou, em cada um de vós: deixemos um mundo com famílias. É o melhor legado”. Papa Francisco

Os conflitos sociais representam uma das principais causas de sofrimento no mundo contemporâneo, pelo colapso no atendimento às necessidades humanas básicas, quais sejam: alimentação, habitação, saúde, educação, segurança e transporte. Entretanto, esclarece a Doutrina Espírita, em determinadas circunstâncias estes conflitos podem produzir reações positivas por parte de governantes e de pessoas esclarecidas, formadoras de opinião, desenvolvendo ações efetivas capazes de modificar o curso nefasto dos acontecimentos.

As vítimas, muitas vezes silenciosas, são submetidas a algum tipo de sofrimento indescritível.

A violência doméstica é um problema atual que atinge, milhares de crianças, adolescentes e mulheres. Fazem parte da violência doméstica as agressões físicas e psicológicas, sendo as mais comuns os espancamentos, a negligência em relação aos cuidados com os bebês e as crianças, e o abuso sexual.

A violência doméstica se encontra em todas as classes sociais, mas muitas vezes é agravada pelo estado de miséria de uma família. A miséria aparece aliada à ignorância (não no sentido escolar do termo, mas a ignorância da brutalidade) e se dá no meio da fome, da tensão, em conluio com o álcool e com as drogas. E então, a violência se torna a linguagem de cada dia. Nesse sentido, a sociedade que não dá oportunidades justas de educação, trabalho e desenvolvimento humano é co-responsável por essa geração de crianças feridas. (Dora Incontri)


Em função disto, temos uma extensão gravíssima do problema que é a violência urbana, com um aumento significativo, gerando um caos junto a população em razão dos frequentes relatos de assaltos, atropelamentos, homicídios e sequestros.

As famílias estão cada vez mais isoladas dentro de suas habitações, construindo muros altos ou colocando grades elétricas nas residências; instalando mecanismos de vigilância ou de segurança e, mesmo assim, não se sentem a salvo da ação criminosa.

Violência doméstica é todo tipo de violência que é praticada entre os membros que habitam um ambiente familiar em comum. Pode acontecer entre pessoas com laços de sangue (como pais e filhos), ou unidas de forma civil (como marido e esposa ou genro e sogra).

A violência doméstica pode ser subdividida em violência física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. Também é considerada violência doméstica o abuso sexual de uma criança e maus tratos em relação a idosos.

Toda violência doméstica é repudiável, mas os casos mais sensíveis são a violência doméstica infantil, porque as crianças são mais vulneráveis e não têm meios de defesa. Mesmo quando a violência doméstica não é dirigida diretamente à criança, esta pode ficar com traumas psicológicos.
Muitos casos de violência doméstica ocorrem devido ao consumo de álcool e drogas, mas também podem ser motivados por ataques de ciúmes.

Muitas famílias vivem e revivem agressividades múltiplas, influenciadas pela violência que, insistentemente, é veiculada pelos noticiários, pelos documentários, pelos filmes, pelas torpes telenovelas e pelos programas de auditório (cada vez mais obscuros de valores éticos).

Alguns familiares assimilam, subliminarmente, essas informações e, no quotidiano, sobretudo, reagem, violentamente, diante dos reveses da vida ou perante as contrariedades corriqueiras. A brutalidade familiar tem esmaecido, consideravelmente, o caminho para Deus.

Há os que condenam a violência alheia, mas, no entanto, no dia-a-dia, ao invés de agirem de forma pacífica e fraterna, são quais androides, revidando com a mesma moeda as agressividades sofridas.
Existem aqueles casais que dizem viver um amor recíproco e, no entanto, quando há qualquer desentendimento entre eles, são extremamente hostis um com o outro.

Há os que veem no cônjuge um verdadeiro teste de paciência, pois os seus "santos" não se "cruzam". Mais ainda, quando o assunto são os filhos, há pais que dizem adorar todos eles, mas os consideram espíritos imaturos, que dão muito trabalho e, não raro, desgostos. A vida em família, nessas condições, transforma-se em verdadeiro tormento.

Na verdade, se não os aceitarmos, hoje, como são, teremos de aceitá-los amanhã, pois as leis da vida exigem, segundo nos ensinou Jesus, que nos entendamos com os nossos irmãos de penosa convivência 'enquanto estivermos a caminho com eles'.

A fuga aos deveres atuais será paga mais tarde com os juros devidos. Os filhos difíceis são filhos de nossas próprias obras, em vidas passadas, que a Providência Divina, agora, encontra a possibilidade de nos unir pelos laços da consanguinidade, dando-nos a maravilhosa chance de resgate, reparação e os serviços árduos da educação. (Jorge Hessen).

Lei Maria da Penha
A lei nº 11.340 de 7 de Agosto de 2006, também conhecida como Lei Maria da Penha, tem como objetivo lidar de forma adequada com a problemática da violência doméstica.

Segundo o artigo 5º da lei "configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial".

No capítulo 9 do Evangelho segundo o espiritismo (Allan Kardec) nos itens de 1 a 5, sobre "injúrias  e violências", podemos começar a refletir sobre o nosso dia a dia, que afinal de contas não difere muito da época de Jesus.

Todas as vezes que pensamos nisso, imediatamente nos vêm à mente as injúrias e violências modernas, que não são tão modernas assim...

Estudos
Evangelho segundo o Espiritismo

A fé sincera e verdadeira é sempre calma. Confere a paciência que sabe esperar, porque estando apoiada na inteligência e na compreensão das coisas, tem a certeza de chegar ao fim. A fé insegura sente a sua própria fraqueza, e quando estimulada pelo interesse torna-se furiosa e acredita poder suprir a força com a violência calma na luta é sempre um sinal de força e de confiança, enquanto a violência, pelo contrário, é prova de fraqueza e de falta de confiara em si mesmo.

INJÚRIAS E VIOLÊNCIAS
1. Bem-aventurados os mansos, porque eles possuirão a Terra. (Mateus,V: 4).

2. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. (Mateus,V: 9)
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3. Ouvistes que foi dito aos antigos? Não matarás, e quem matar será réu no juízo. Pois eu vos digo que todo o que se ira contra o seu irmão será réu no juízo; e o que disser a seu irmão: raca, será réu no conselho; e o que disser: és louco, merecerá a condenação do fogo do inferno. (Mateus,V:21-22).

4. Por essas máximas, Jesus estabeleceu como lei a doçura, a moderação, a mansuetude, a afabilidade e a paciência. E, por consequência, condenou a violência, a cólera, e até mesmo toda expressão descortês para com os semelhantes. Raca era entre os hebreus uma expressão de desprezo, que significava homem reles, e era pronunciada cuspindo-se de lado. E Jesus vai ainda mais longe, pois ameaça com o fogo do inferno aquele que disser a seu irmão: És louco.

É evidente que nesta, como em qualquer circunstância, a intenção agrava ou atenua a falta. Mas por que uma simples palavra pode ter tamanha gravidade, para merecer tão severa reprovação? É que toda palavra ofensiva exprime um sentimento contrário à lei de amor e caridade, que deve regular as relações entre os homens, manter a união e a concórdia. É um atentado à benevolência recíproca fraternidade, entretendo o ódio e a animosidade. Enfim, porque depois da humildade perante Deus, a caridade para com o próximo primeira lei de todo cristão.

5. Mas o que dizia Jesus por estas palavras: "Bem-aventurados os mansos, porque eles possuirão a Terra?" Não ensinou ele a renúncia aos bens terrenos, prometendo os do céu?

Ao esperar os bens do céu, o homem necessita dos bens da terra para viver. O que ele recomenda, portanto, é que não se dê a estes últimos mais importância que aos primeiros.

Por essas palavras, ele quer dizer que até agora os bens da terra foram açambarcados pelos violentos, em prejuízo dos mansos e pacíficos. Que a estes faltam frequentemente o necessário, enquanto os outros dispõe do supérfluo. E promete que justiça lhes será assim na terra como no céu, porque eles serão chamados filhos de Deus. Quando a lei de amor e caridade for a lei da humanidade não haverá mais egoísmo; o fraco e o pacífico não serão mais explorados nem espezinhados pelo forte e o violento. Será esse o estado da Terra, quando, segundo a lei do progresso e a promessa de Jesus, ela estiver transformada num mundo feliz, pela expulsão dos maus.

Para saber mais:
https://revistaforum.com.br/blogs/ativismodesofa/naturalizacao-da-violencia-contra-mulher-em-frases-cotidiano/

sábado, 24 de agosto de 2019

A cada vez que morremos ganhamos mais vida. Victor Hugo



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Encontros e Despedidas

Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero

 Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim, chegar e partir

São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também de despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida... 

(Milton Nascimento / Fernando Brant)


Quando observamos, da praia, um veleiro a afastar-se da costa, navegando mar adentro, impelido pela brisa matinal, estamos diante de um espetáculo de beleza rara.
O barco, impulsionado pela força dos ventos, vai ganhando o mar azul e nos parece cada vez menor.
Não demora muito e só podemos contemplar um pequeno ponto branco na linha remota e indecisa, onde o mar e o céu se encontram.
Quem observa o veleiro sumir na linha do horizonte, certamente exclamará: Já se foi.
Terá sumido? Evaporado?
Não, certamente. Apenas o perdemos de vista.
O barco continua do mesmo tamanho e com a mesma capacidade que tinha, quando estava próximo de nós.
Continua tão capaz, quanto antes, de levar ao porto de destino as cargas recebidas.
O veleiro não evaporou, apenas não o podemos mais ver. Mas ele continua o mesmo.
E talvez, no exato instante em que alguém diz: Já se foi, haverá outras vozes, mais além, a afirmar: Lá vem o veleiro.
Assim é a morte.
Quando o veleiro parte, levando a preciosa carga de um amor que nos foi caro e o vemos sumir na linha que separa o visível do invisível dizemos: Já se foi.
Terá sumido? Evaporado?
Não, certamente. Apenas o perdemos de vista.
O ser que amamos continua o mesmo. Sua capacidade mental não se perdeu. Suas         conquistas seguem intactas, da mesma forma que quando estava ao nosso lado.
Conserva o mesmo afeto que nutria por nós. Nada se perde, a não ser o corpo físico de que não mais necessita no outro lado.
E é assim que, no mesmo instante em que dizemos: Já se foi, no mais além, outro alguém dirá feliz: Já está chegando.
Chegou ao destino levando consigo as aquisições feitas durante a viagem terrena.
A vida jamais se interrompe nem oferece mudanças espetaculares, pois a natureza não dá saltos.
Cada um leva sua carga de vícios e virtudes, de afetos e desafetos, até que se resolva por desfazer-se do que julgar desnecessário.
A vida é feita de partidas e chegadas. De idas e vindas.
Assim, o que para uns parece ser a partida, para outros é a chegada.
Um dia partimos do mundo espiritual na direção do mundo físico; noutro, partimos daqui para o espiritual, num constante ir e vir, como viajores da Imortalidade que somos  todos nós.

Victor Hugo, poeta e romancista francês, que viveu no século XIX, falou da vida e da morte dizendo:
A cada vez que morremos ganhamos mais vida. As almas passam de uma esfera para a outra sem perda da personalidade, tornando-se cada vez mais brilhante.
Eu sou uma alma. Sei bem que vou entregar à sepultura aquilo que não sou.
Quando eu descer à sepultura, poderei dizer, como tantos: meu dia de trabalho acabou. Mas não posso dizer: minha vida acabou.
Meu dia de trabalho se iniciará de novo na manhã seguinte.
O túmulo não é um beco sem saída, é uma passagem. Fecha-se ao crepúsculo e a aurora vem abri-lo novamente.

Fonte: Momento Espírita

Além, Morte, Fé, Céu, Deus, Religião

Estudos:


150 – b) A alma não leva nada deste mundo?
— Nada mais que a lembrança e o desejo de ir para um mundo melhor. Essa lembrança é cheia de doçura ou de amargor, segundo o emprego que tenha dado à vida. Quanto mais pura para ela for, mais compreenderá a futilidade daquilo que deixou na Terra.
A libertação da alma e do corpo se opera gradualmente e com uma lentidão variável, segundo os indivíduos e as circunstâncias da morte. Os laços que unem a alma ao corpo não se rompem senão pouco a pouco, e tanto menos rapidamente quanto a vida foi mais material e mais sensual. (O Livro dos Espíritos, nº 155)
A Alma não se perde na imensidade do Infinito, como geralmente se figura; ela erra_no_espaço e, o mais freqüentemente, no meio daqueles que conheceu, e sobretudo daqueles que amou, podendo se transportar instantaneamente a distâncias imensas.
____Ela conserva todas as afeições morais; não esquece senão as afeições materiais que não são mais da sua essência. Por isso, vem com alegria rever seus parentes e seus amigos, e é feliz por dela se lembrarem (Revista Espírita, 1860, Os amigos não nos esquecem no outro mundo. Idem, 1862

O amor que as une é, para elas, a fonte de uma suprema felicidade. Elas não experimentam nem as necessidades, nem os sofrimentos, nem as angústias da vida material. Um estado de contemplação perpétua seria uma felicidade estúpida e monótona, própria do egoísta, uma vez que sua existência seria uma inutilidade sem limites. A vida espiritual, ao contrário, é uma atividade incessante pelas missões que os Espíritos recebem do ser supremo, como sendo seus agentes no governo do Universo; missões que são proporcionais ao seu adiantamento e das quais são felizes, porque lhes fornecem ocasiões de se tornarem úteis e de fazerem o bem. (O Livro dos Espíritos, nº 558: Ocupações e missões dos Espíritos - Revista Espírita, 1860; Os Espíritos puros; a morada dos bem-aventurados - Idem, 1861, Madame Gourdon). Nota: Convidamos os adversários do Espiritismo e aqueles que não admitem a reencarnação, a darem aos problemas acima uma solução mais lógica, por qualquer outro princípio que o da pluralidade das existências.
____Depois da morte, a diferença entre a alma do sábio e do ignorante, do selvagem e do homem civilizado, é a mesma diferença, aproximadamente, que existe entre eles durante a vida, porque a entrada no mundo dos Espíritos não dá à alma todos os conhecimentos que lhe faltavam sobre a Terra.
Allan Kardec